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A cruz no piso da Catedral de Sant’Ana em Tianguá

  • Foto do escritor: Iraldo Melo
    Iraldo Melo
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Procissão de Entrada da Santa Missa na Catedral de Santana. Nesta Imagem, podemos ver a Cruz ao centro do piso da Igreja. Créditos: Pascom de Tianguá
Procissão de Entrada da Santa Missa na Catedral de Santana. Nesta Imagem, podemos ver a Cruz ao centro do piso da Igreja. Créditos: Pascom de Tianguá

Ao adentrar a Catedral de Sant’Ana, em Tianguá, os olhos naturalmente se voltam para o altar-mor, para a majestosa imagem de Sant’Ana, para os lustres de cristal e para a beleza arquitetônica do templo. No entanto, poucos percebem que um dos mais importantes marcos históricos da Catedral não está diante dos olhos, mas sob os pés dos fiéis.


No centro da nave principal, discretamente inserida no piso, encontra-se uma cruz.


À primeira vista, ela pode parecer apenas um elemento decorativo da composição arquitetônica do templo. Contudo, essa cruz possui um significado muito mais profundo: ela assinala o local onde repousam os restos mortais de Monsenhor Agesilau de Aguiar, um dos sacerdotes que mais influenciaram a história religiosa e social de Tianguá.


Uma tradição secular da Igreja

Desde os primeiros séculos do Cristianismo, tornou-se comum o sepultamento de bispos, sacerdotes e benfeitores no interior das igrejas. Essa prática simbolizava o vínculo permanente entre o pastor e a comunidade que ele serviu durante a vida.


Embora atualmente essa tradição seja bastante restrita, durante muitos séculos era considerada uma das maiores honrarias concedidas a membros do clero que haviam dedicado sua existência ao serviço da Igreja.


Foi nesse contexto que Monsenhor Agesilau de Aguiar recebeu a homenagem de ser sepultado no interior da então Igreja Matriz de Sant’Ana, hoje elevada à dignidade de Catedral da Diocese de Tianguá.


Quem foi Monsenhor Agesilau de Aguiar?


Imagem do Monsenhor Aguiar - Colorida com uso de Inteligência Artificial
Imagem do Monsenhor Aguiar - Colorida com uso de Inteligência Artificial

Monsenhor Dr. Agesilau de Aguiar, filho de Cel. Manuel Francisco de Aguiar e Lourença Gomes de Aguiar, nasceu em 09 de maio de 1879, na Vila de Barrocão, que pertencia à freguesia de Viçosa, hoje Tianguá.


Monsenhor Aguiar após uma temporada de estudos fora, retorna a Tianguá no início do século XX, assumindo a Paróquia de Sant’Ana em um período de profundas transformações para o município.


Durante aproximadamente vinte e seis anos de ministério paroquial, tornou-se uma das figuras mais respeitadas da região da Ibiapaba.


Sua atuação extrapolava os limites estritamente religiosos. Era um líder comunitário, educador, conselheiro e incentivador do progresso local.


Sob sua administração, a antiga igreja matriz passou por importantes obras de ampliação e embelezamento. Muitas das características arquitetônicas que hoje identificam a Catedral remontam às intervenções realizadas durante seu paroquiato.


Também incentivou a construção de importantes obras religiosas, fortaleceu as pastorais, promoveu missões, ampliou a presença da Igreja nas comunidades rurais e colaborou diretamente para o desenvolvimento cultural e social de Tianguá.


Sua influência foi tão significativa que seu nome permanece vivo em instituições públicas, ruas e na memória coletiva da população.


O sepultamento na Matriz de Sant’Ana

Com seu falecimento, aos 04 de fevereiro de 1957, às 17h30min, num café em Sobral, no beco do cotovelo, vítima de um ataque cardíaco fulminante, a cidade despediu-se daquele que havia sido seu pastor durante mais de duas décadas.


A notícia da morte de Mons. Aguiar causou grande comoção aos paroquianos que o amavam verdadeiramente.


Seu velório trouxe autoridades eclesiais de toda a região e a missa de corpo presente foi celebrada pelo bispo de Sobral, Dom José Tupinambá da Costa, com a presença de grande número de fiéis, 11 sacerdotes, os franciscanos do convento e representantes das cidades de Viçosa, Ubajara, Frecheirinha e demais municípios circunvizinhos.


Velório do Mons. Aguiar - Foto pertencente ao acervo do Historiador João Bosco Gaspar.
Velório do Mons. Aguiar - Foto pertencente ao acervo do Historiador João Bosco Gaspar.

Em reconhecimento ao extraordinário legado deixado por Monsenhor Aguiar, decidiu-se por seu sepultamento no interior da Igreja Matriz de Sant’Ana.


Seu enterro ocorreu no cair da tarde do dia 05 de fevereiro de 1957.


Seu túmulo foi instalado na nave principal da igreja, local por onde diariamente passam centenas de pessoas durante as celebrações, visitas e momentos de oração.


Posteriormente, uma cruz foi colocada sobre o local, preservando a memória do sacerdote sem alterar a harmonia arquitetônica do templo.


Um símbolo de memória

Mais do que indicar um local de sepultamento, aquela cruz tornou-se um verdadeiro monumento histórico.


Ela representa a gratidão de toda uma comunidade a um homem que dedicou sua vida ao anúncio do Evangelho e à construção da identidade religiosa de Tianguá.


Poucos municípios brasileiros preservam em suas igrejas um testemunho tão eloquente da própria história eclesiástica.


A presença do túmulo de Monsenhor Aguiar no interior da Catedral estabelece uma ligação concreta entre as gerações atuais e um dos personagens mais importantes da formação da cidade.


Um patrimônio que merece ser conhecido

Infelizmente, muitos fiéis passam diariamente sobre essa cruz sem conhecer sua história. Outros sequer imaginam que, sob aquele discreto marco, repousa um sacerdote cuja dedicação foi decisiva para a consolidação da Paróquia de Sant’Ana e para o desenvolvimento religioso da Serra da Ibiapaba.


Conhecer esse detalhe é compreender que a Catedral não é apenas um espaço destinado às celebrações litúrgicas. Ela também é um verdadeiro arquivo vivo da memória de Tianguá.


Cada parede, cada altar, cada imagem e cada elemento arquitetônico preservam fragmentos da história de homens e mulheres que ajudaram a construir a identidade do município.


A cruz existente no piso da Catedral de Sant’Ana é um convite ao silêncio e à gratidão.


Ela recorda que as grandes obras não são construídas apenas com pedra e cal, mas também com dedicação, fé e espírito de serviço.


Ao passar por aquele local, vale a pena fazer uma breve pausa, fazer uma prece e recordar Monsenhor Agesilau de Aguiar. Seu legado permanece vivo não apenas no templo que ajudou a engrandecer, mas também na história de Tianguá e na memória de seu povo.


Mais do que um simples detalhe arquitetônico, aquela cruz é um testemunho permanente de uma vida inteiramente dedicada à Igreja e à comunidade.


Ela simboliza a continuidade entre passado e presente, lembrando-nos de que a história da Catedral de Sant’Ana também é a história daqueles que a edificaram, a serviram e fizeram dela um dos maiores patrimônios religiosos da Serra da Ibiapaba.

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